[ Entrevista ]

Jesse, uma vida a serviço do golfe brasileiro
15/1/2006 - 12h56
Simon Press  

O golfe brasileiro deve muito a Jesse Stanley Rinehart JuniorSão Paulo (SP) - Você sabe o que é camone? Em caso de dúvida, pergunte ao Jesse, brevês de piloto civil e de planador, goleiro de futebol, praticante de natação e basquete e um dos dirigentes mais conhecidos e respeitados do golfe brasileiro, onde tem uma cativante história de mais de 70 anos.

Notável e requisitado expert em regras e decisões, há 13 anos foi homenageado com um torneio que leva seu nome: Interfederações Juvenil – Taça Jesse Stanley Rinehart Junior.

Aos 81 anos, Jesse vive com a esposa Madeleine num confortável apartamento nas proximidades da avenida Rebouças, em São Paulo, mas talvez mais certo seja encontrá-lo num campo de golfe. Defendeu o Brasil, como jogador e capitão, por longos anos. Fundou e foi presidente da Associação Brasileira de Golf e depois da Confederação Brasileira de Golfe, entre tantas realizações.

Em entrevista ao site Golfexpress Classic, ele conta detalhes de sua vida, de como aprendeu a jogar golfe e virou dirigente.

Golfexpress Classic: O que é camone?

Jesse: O camone era um taco de bambu, nome dado pelos caddies. Os ingleses quando viam o caddie atrasado, chamavam: come on, come on. Imaginando que eles estavam pedindo os tacos, os caddies diziam: eles querem os camones. Até hoje os caddies mais antigos falam, ao verem um taco de titânio: olha que camone bonito.

GC: Onde o senhor nasceu?

Jesse: Em São Paulo, em 27 de dezembro de 1923. Meu pai era americano e minha mão brasileira, de São Vicente.

GC: Como o golfe entrou na família?

Jesse: Meu avô materno era inglês e, em Santos, representava uma agência de navios a vapor. Por volta de 1913, recebeu um terreno como pagamento de uma dívida, em São Vicente. Era um brejo, mas ele teve que aceitar. Aterrou o local e construiu o Santos Golf Club, para não ter mais que ir a São Paulo jogar golfe. Ali está hoje o Santos-São Vicente Golf Club.

Quando o campo ficou pronto, meu avô mandou a minha mãe e as crianças para a Escócia, para aprenderem a jogar golfe. Minha mãe se deu bem, porque já jogava hóquei sobre a grama. E foi no campo de Santos que conheceu meu pai, um americano com handicap 4. O casamento aconteceu em 1920.

GC: Quando o senhor começou a gostar desse esporte?

Jesse: Desde pequeno meu pais me levavam ao São Paulo Golf Club, mas na época tinha um aviso lá dizendo que criança e cachorro não podiam entrar. Então eu ficava de longe e quando tinha fome ia lá atrás, na cozinha, e o pessoal me dava bolo e sanduíche. Comecei no campo dos caddies, pra lá do atual buraco 8, e aprendi com o camone.

GC: Como foi sua juventude? Praticava outros esportes?

Jesse: Em 1935 terminei a Graded School do Colégio Americano e fui para a Escola Britânica, em 1936. Parei como golfe e passei a me dedicar ao futebol, tênis, natação e basquete, estimulado pelo meu irmão Peter, que era do Paulistano e da Seleção Paulista.

Eu gostava mesmo é do futebol. Nessa época ele era muito violento e o goleiro precisava ser forte, grande como eu, porque mesmo com a bola na mão podia levar um tranco. Um dia me atirei numa bola, cai e um jogador me acertou um chute nas costas. Tive uma lesão no rim e fui parar no hospital por uma semana. Quando sarei, voltei a ser goleiro.

GC: Como o senhor era na escola?

Jesse: Eu....era peralta demais. Até hoje sinto as reguadas que a professora dava na palma da minha mão. Eram tantas que acostumei. Pior era o castigo de ficar depois da aula ou não ir para o recreio.

GC: Quando o senhor se casou?

Jesse: Eu conheci a Madeleine quando estudamos juntos, na Escola Britânica. Em 1945, nos casamos. Tivemos um filho, William, que não é golfista. Formou-se em Engenharia Eletrônica e hoje tem uma fábrica de transmissores de rádio.

GC: O que o senhor estudou?

Jesse: Depois do primário, foram cinco anos de ginásio e três de científico. Consegui uma bolsa para os Estados Unidos onde queria fazer Engenharia Aeronáutica, mas era época da guerra e eu não pude sair do país. Como já tinha brevê de piloto civil, tentei mudar do Exército para a Aeronáutica, mas o Ministério da Guerra não aceitou. Fiz Tiro de Guerra e fui trabalhar.

GC: Quando se tornou dirigente?

Jesse: Em 1950, eu trabalhava numa empresa americana e o gerente de São Paulo voltou aos EUA. Fiquei no lugar dele e uma das regalias era um título do São Paulo Golf Club. Em 1958, fundei a Associação Brasileira de Golf, que originou a Confederação Brasileira de Golfe, em 1974.

Em 1960, organizei o primeiro Campeonato Aberto do Brasil. Fui capitão e chefe da delegação em muitos campeonatos mundiais e sul-americanos, no México, Espanha, Argentina, República Dominicana, Portugal, Estados Unidos....

GC: Qual sua maior alegria?

Jesse: O terceiro lugar masculino no Mundial de 1974, na República Dominicana, com Jaime Gonzalez, Ricardo Rossi, Priscillo Diniz e Rafael Navarro.

GC: Como os equipamentos chegavam ao Brasil?

Jesse: Eram importados. Registrei a Associação Brasileira de Golf na alfândega do Rio de Janeiro. Tinha um despachante na empresa do Seymour Marvin, que era craque. Quando o material chegava de navio, eu pegava minha caminhonete C-14, chamava o João Dias, um ex-corredor de automóvel, para dirigir, e la íamos nós para o Rio.

GC: Qual foi sua primeira taqueira?

Jesse: Wilson ,que comprei de um sócio do clube. Para quem tinha aprendido com o camone, era muito mais fácil jogar com tacos de verdade.

GC: O senhor é sócio de St. Andrews. Como foi isso?

Jesse: Sou o segundo brasileiro. O primeiro foi o Seymour Marvin, mais ou menos em 1950. Ele se encarregou de buscar assinaturas de endosso à minha proposta, entre presidentes das federações da Alemanha, Áustria e Austrália.

Depois que entramos, o pessoal de St. Andrews perguntava se não havia outros da América do Sul. Nós encaminhamos os argentinos Jorge Ledesma e Ivan Proston, o venezuelano Fred Alcantara e mais tarde outros brasileiros: José Joaquim Barbosa, D. Eudes de Orleans e Bragança, Richasrd Connoly, Luiz Felipe Lampreia, Armínio Fraga e o Marcelo Stallone.

GC: Qual a emoção de pisar em St. Andrews pela primeira vez?

Jesse: A gente sente no ar a tradição e a história saindo pelas paredes, pinturas e fotografias. A dificuldade do campo eu descobri logo. No primeiro dia foi fácil. No buraco 1, bati um drive com ferro 7. A bolca caiu no green, emboquei e fiz um birdie. Pensei: por que dizem que é tão difícil?

No dia seguinte voltei lá. O caddie disse: bata com madeira 4. Eu bati. Tinha um córrego lá na frente e eu nem cheguei lá. Tem um buraco, acho que é o 10, que se não tem vento, você bate com ferro 8 ou 9. Com vento, ferro 3. Lá tudo é surpreendente.

GC: Como o sr. conhece tantas regras?

Jesse: Como capitão, eu era sempre consultado pelos jogadores. Quando passei a organizar os campeonatos, mais ainda. Fui obrigado a aprender.

Em 1998, fiz o curso em St. Andrews, passei e tenho o diploma de Juiz de Regras. Lá aconteceu um fato curioso. Na entrega dos diplomas, falei que queria uma foto para provar que tinha estado lá. Eles nunca tinham feito isso e gostaram da idéia. O fotógrafo levou uma escada para o campo e a foto passou a ser tradicional nos cursos.

GC: Como são seus tacos?

Jesse: Uso Titleist antigos, mas são bons. Na novela Kubanakan, o Humberto Martins jogou com os meus tacos, porque a novela lembrava 1950 e tinham dado a ele tacos modernos. Encontrei com ele em Comandatuba (litoral da Bahia) e ficamos amigos. Ele até brincou: "seus tacos são difíceis, hein?"

Depois vi ele treinando muito drive e dei uma dica: bata só 4 a 5 bolas com cada taco. Num jogo você bate um tiro longo no máximo 36 vezes. O resto é tudo tiro curto. Com esses golpes é que a gente ganha um jogo e é o que você deve treinar...

GC: Quantos hole-in-one o senhor já fez?

Jesse: Só um. Foi no buraco 7 do São Paulo Golf Club.

GC: Qual o segredo para jogar bem?

Jesse: Primeiro, saber que não precisa de um jogo de tacos caros e sofisticados. Hoje todo mundo quer carregar 14 tacos. O Johnny Costa Lima me contou que estava na Inglaterra com o Douglas McFarlaine para jogar a classificação para o Aberto Britânico. Aí apareceu um inglês com 5 ou 6 tacos na mão e sem bolsa. Eles comentaram baixinho: "Esse aí vamos fazer voltar do buraco 15". Pois com aqueles poucos tacos, o inglês jogava uma barbaridade e os brasileiros quase perderam o rumo de casa.

GC: O senhor teve alguma experiência curiosa?

Jesse: Muitas. Em 1970 fui jogar a Taça dos Delgados, na Espanha, com um escocês, bem mais idoso que eu. Quase fiquei com dó. Pois o cara era só "pá no meio do fairway, pá e pá", não errava uma. No final, perguntei: qual é seu handicap? Ele disse: 1. E completou: o senhor me desculpe que não estou jogando bem hoje, porque ontem joguei na Escócia num frio enorme, com quatro agasalhos, e hoje não me senti bem com tanto calor...

GC: Um grande amigo seu, Humberto Almeida, "El Sinistro", tinhas histórias interessantes....

Jesse: Era um grande cara. Uma vez, no México, a bola dele caiu no meio de umas árvores e ele foi tentar tirar. Eu só ouvia o barulho d das bolas richocheteando nas árvores, até que ele apareceu. Perguntei: por que você nào considerou a bola injogável para perder uma só tacada?

"Ah, não. Eu disse que ia sair de lá e sai."

Outra vez, na Colômbia, a bola caiu perto de uma cerca. Ele se ajeitou e, com uma jogada fantástica, colocou a bola no green. O Juan Antonio Estrada, um mexicano, não acreditou. "Você é mágico!". Foi ali que o Humberto ganhou o apelido de "El Sinistro", porque fazia coisas que ninguém conseguia.

GC: Qual o seu maior orgulho?

Jesse: Foi a introdução do golfe para o jovem. Digo com grande orgulho que realizei o Primeiro Torneio da Juventude, que deu origem ao Campeonato Juvenil Brasileiro. Em torneios, foi ter ganho a Taça Clark, a mais antiga do São paulo Golf Club.

GC: O Brasil pode ter o golfista número um do mundo?

Jesse: Acho possível., mas é preciso muito trabalho. Um dia comentei com o Ricardo Rossi, no São Fernando. Aquele jovem ali, vai longe! O Ricardo olhou e disse: Jesse, no Estados Unidos tem um 10 mil iguais a ele. Há pouco, o Richard Conolly teve a inscrição recusada para o Aberto Britânico e reclamou com a organização: "Tenho handicap 1. Por que fiquei fora?".

A resposta veio rápida: "o pior jogador que temos inscrito para a classificação é handicap +1". Essa é a realidade. A concorrência mundial é muito grande.

GC: Qual sua maior conquista no golfe?

Jesse: As amizades. Hoje posso ir à África do Sul, Austrália, Estados Unidos, Inglaterra, França, Alemanha, que tenho amigos.

 
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